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Prof. Dr. Demi Getschko

A conexão que rompeu barreiras

Prof. Demi Getschko Nascido em Trieste - Itália, Getschko é de nacionalidade brasileira. Estudou Engenharia em 1971 na Escola Politécnica da USP, fazendo mestrado e doutorado pela mesma universidade. Trabalhou no Centro de Computação Eletrônica - CCE da USP, de 1971 a 1985 e, neste ano, foi para a FAPESP, onde trabalhou até 1996, no Centro de Processamento de Dados - CPD.

De 1996 a 2000 ficou na Agência Estado, do Grupo Estado, como Diretor de Tecnologia. No IG, foi Vice-Presidente de Tecnologia, permanecendo até 2001. De volta à Agência Estado, na mesma função, permaneceu por mais alguns anos e integrou-se a equipe do NIC.br, tornando-se ainda membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, funções que exerce até hoje.

Coordenador do PUCSPNetLab, laboratório da Camada 2 de Transporte do Projeto KyaTera, Getschko concedeu-nos uma entrevista pelo fato de também ser um dos precursores da internet no Brasil. Confira o resultado.

Qual a sua ligação com as redes?

A minha ligação com as redes começa em meados de 1971 como estagiário do CCE, depois houve a montagem de uma rede de terminais na USP. Essa rede evoluiu para uma outra mais sofisticada. Quando eu cheguei na FAPESP, começou um movimento importante de conexão internacional da comunidade científica acadêmica brasileira, que acabou virando do Brasil como um todo.

Nós buscamos conexão com redes, primeiro a bitnet (Because it's time NETwork) e depois de uma rede física de alta energia chamada Hepnet (High-Energy Physics Network). Em 1991, a primeira conexão internet, um dos primeiros pacotes da Internet brasileiros, rodou entre o ESNet (Energy Sciences Network) nos Estados Unidos, por meio do Fermilab (Fermi National Accelerator Laboratory), onde nós estávamos conectados e a FAPESP pôde rodar os primeiros pacotinhos de IP. Depois disso, a rede foi crescendo, o Comitê Gestor foi criado em 1995 e a banda se expandiu.

O Sr. se lembra de como foi o seu primeiro contato com um computador?

Em julho de 1971. Eu estava no primeiro ano da POLI e houve uma chamada para aqueles que quisessem fazer um curso de Assembly, do computador central na USP, que na época era um Burroughs 3500. Desde o meu primeiro contato eu fiquei muito interessado com a história, com a forma de mexer intimamente com um computador de uma arquitetura extremamente sofisticada, principalmente na parte de software.

Quando e como foi a sua primeira experiência com a Internet?

A primeira vez que eu tive contato foi provavelmente em 1982 quando eu fazia doutorado. Havia um curso de redes de pacotes dado por um professor da Universidade da Califórnia, o Seley - Mário Gerla, de origem italiana. É conhecido também como um dos pais da rede, junto com Vinton Gray Cerf e outros. Ele trabalhava no estado da Califórnia, em Los Angeles, e daria um curso sobre redes de pacotes.

Nessa descrição de pacotes, o Gerla citava as experiências com os IMPS, que eram os Internet de processos, as formas de rotear coisas na Internet, teoria de filas, entrada e saída de pacotes etc. Na época eu achei complexo, comparado com a rede usada na USP que era uma rede de terminais com protocolos tipo poll-select, Bisync - BSC e outros protocolos de acesso simples. Depois fizemos a instalação de rede de terminais da USP, mas eram basicamente terminais interligados via modem, via linha telefônica e até via telex.

Essa foi a pré-história da rede. Quando eu fui para a Fapesp, achei que não fosse me envolver mais com redes, pensei que cuidaria do CPD normalmente, com bases de dados e afins. Foi então que apareceu uma pressão da comunidade para a conexão internacional; a Fapesp era, de alguma forma, um ponto neutro que podia ser usado para atender as 3 universidades ao mesmo tempo: USP, Unesp e Unicamp. Além disso, dispunha de recursos financeiros, um CPD montado, e o professor Oscar Sala, Presidente do Conselho, que era muito entusiasmado por computação e por redes. Então houve um ambiente para formação de uma equipe.

Na sua opinião, quais são as principais características das redes acadêmicas e da Internet?

1. Primeiro elas trouxeram um ambiente extremamente livre e cooperativo. Todos cooperam para que você consiga o que você quer. Mesmo antes das grandes ferramentas de busca, do Altavista, depois com o Google, era possível encontrar uma rede de apoio para o que fosse preciso. A primeira impressão era que o poder de contato na rede era infinito, porque você mandava um e-mail para alguém importantíssimo e, em apenas meia hora, você recebia a resposta. Era uma grande janela para o mundo de grande abertura para colaboração.

2. Outra característica é que muitos recursos da rede são grátis. O melhor software geralmente é disponível de graça e aberto, os melhores aplicativos são disponíveis gratuitamente e você pode ajudar a desenvolvê-los, se tiver condições, e também há uma grande cooperação neste sentido.

3. O impacto social que possui dá voz a todos os que estão na rede. Você não é um simples espectador, você pode virar rapidamente um ator. Pode gerar seus pontos de vista, idéias, colocar fotos de seus cachorros na rede etc. Você pode ser um "publicador" na rede. O poder que isso traz ao usuário é muito grande e a alteração na sociedade, imensa.

Que impactos essa conexão trouxe para o País?

O Brasil não perdeu a primeira onda, nem manifestações da rede. Seguimos muito colados ao desenvolvimento internacional. O primeiro grande impacto que vivemos foi o correio eletrônico, uma ferramenta extremamente valiosa; duvido que alguém comece o dia sem xeretar seus e-mails, gastar uma meia hora para responder, entrar em duas horas de novo e passar o dia inteiro testando.

Um segundo impacto foi a entrada na cena do www. Hoje o usuário leigo acha que a Internet é sinônimo de www. Não é verdade. O www dá um potencial enorme de conexão, de você usar o hipertexto, a imagem e gerar sua própria informação, além de tirar a rede do isolamento acadêmico em que só alguns sabiam onde e como fazer sua informação circular, favorecendo que esse conteúdo seja disponibilizado à toda a comunidade.

O lançamento do primeiro buscador do Altavista, que mapeou grandes regiões e o avanço de mapeamento ilimitado alcançado pelo Google, mostra quão longe fomos e quão imbricada a rede está no nosso dia-a-dia.

Qual foi a sua principal contribuição para o desenvolvimento da Internet no Brasil?

A minha contribuição foi modesta já que meu papel foi de ajudar a equipe a montar a conexão. Já o grupo, como um todo, teve uma contribuição importante, a de trazer a conexão a todos que quisessem se conectar.

Com a conexão bitnet inicial entre São Paulo e Rio de Janeiro, as pessoas podiam se conectar com sua própria linha de telecomunicações e, apesar de a bitnet ser nativa de computador IBM, podíamos conectar desde Microfax até mainframes Burroughs.

Alberto Gomide criou canal IME, que era uma forma manual de endereçar o correio eletrônico, permitindo que qualquer usuário com Internet discada, via RENPAC 3028 ou 3025, pudesse enviar e receber e-mails em certos horários do dia. Com isso, o correio eletrônico e a conexão da rede se espalharam pelo País.

A abertura de conexão que a Fapesp permitiu, e que no Rio também aconteceu via IMMC, possibilitou aos interessados o acesso à rede sem burocracia, acordo assinado e convênio. Depois entrou a RNP e organizou essa situação, criando um backbone nacional. Eu também participei dessa fase, como diretor de operações da RNP, durante o tempo em que estive na Fapesp.

Foi feito um estudo do backbone, que evoluiu com a contribuição de muitas pessoas, cerca de 15 mais ou menos. Tadao Takahashi, Michael Stanton, Alexandre Grojsgold. Manter essa mentalidade de abertura e cooperação fez com que muita gente se ligasse à rede brasileira e ela crescesse de forma muito ágil.

Cite algumas situações anedóticas ou inéditas que participou nessa fase.

As primeiras mensagens de correio eletrônico na Fapesp aconteceram no início de 1989 e um grupo específico recebia as mensagens. Uma menina chamada Ana Paula conversava, por meio de mensagem, com um estudante da Pennsylvania State University. Eles trocavam duas ou três linhas em inglês sobre suas profissões e o que mais gostavam de fazer. As cartinhas do rapaz tinham no final :-), e nós nos perguntávamos: o que seria isso? Eram as caretinhas. Nós não sabíamos que isso existia, que possuía um sentido na Internet. Você vira 90 graus e a imagem se torna uma caretinha.

Uma outra situação complicada, não vou citar nomes, aconteceu antes da Internet interativa. Era possível acontecerem conversas por meio da Hepnet, e teve uma situação de um complô em que alguém conseguiu uma conta de fora e se fez passar por uma estudante brasileira de sexo feminino que estaria fazendo curso de física no exterior. Essa pessoa começou um namoro pela rede com um dos participantes da equipe. Na época ninguém acreditava que podia haver um trote desse tipo. Houve longa troca de cartas amorosas até descobrirmos que tudo era uma farsa.

Quais perspectivas o Sr. vê para o futuro da internet?

1. Há uma diluição em cima de nossos periféricos, equipamentos auxiliares. O que se espera é que ela desapareça como algo visível. Vai permear nosso dia-a-dia e não nos preocuparemos com o futuro da Internet. É como fazer uma comparação com o futuro da eletricidade. Precisamos esquecer que ela existe, simplesmente nós a usamos e tudo é movido por ela. Uma diluição em todos os aplicativos, nós vamos parar de ver a Internet.

2. Está havendo uma mudança muito grande em diversos paradigmas e modelos que afetarão enormemente a nossa forma de se relacionar, fazer negócios etc. Por exemplo: certamente vai ter que haver uma revisão em termos do que existe hoje como propriedade intelectual, que amarra a obra a um meio físico, livro, CD, videocassette. Agora, está desvinculado do meio. Por isso, a cópia é imediata e instantânea, bits são bits, independente se é um pedaço de imagem, som ou artigo. Certamente algumas formas de remunerar artistas e gravadoras terão que ser revistas. Meios de produção de software e produtos de informática estão sofrendo uma revolução.

Ninguém imaginava que pudesse haver colaboração na geração de sistemas operacionais e desenvolvimento de pacotes de software 20 anos atrás. Você comprava do fabricante genérico. No começo, o caro era o hardware, o software era de graça. Há 10 anos, isso se inverteu, o software passou a ser caro. Isso ainda pode se inverter. O software pode ser gratuito. Alterações que ainda não foram analisadas em detalhes. As transações sem lugar físico, quebras de barreira, pessoal de legislação tentando resolver fraude. Brasileiro na Coréia fazendo atividade ilícita que afeta brasileiros. Como controlar, há que controlar? Vai afetar muito mais profundamente do que enxergamos agora.

Que tendências tecnológicas o Sr. considera relevantes para a sociedade neste momento?

Banda ilimitada. No começo da rede, eram utilizados 4800 bits por segundo para alimentar o Brasil inteiro em correio eletrônico, depois 9600bits, depois 74K. Hoje em casa já temos quase 1 Mega. No começo da Rede, praticamente não havia fibra em áreas metropolitanas, só microondas para longas distâncias. A banda era muito restrita.

Com a proliferação da fibra óptica e das conexões wireless ao redor da fibra, vai-se disponibilizar banda em alta capacidade e baixo custo. Aplicações que nós achávamos impossíveis, como vídeo, vídeo on demand e videoconferência estão ficando triviais por causa da banda. Estamos apostando muito em programas como o TIDIA, que nos apontará para onde vai a rede com essa abundância de banda, como poderíamos usar essa banda para conseguir experimentos em fronteiras não imaginadas por causa da carência de banda. Eu acho que a grande impulsionadora da Internet é a disponibilidade de banda que vai permitir fazer experimentos ainda não testados.

Por: Mariana Passos
Edição: Greice Munhoz