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Luis Valcov Loureiro

Engenharia Química e Bioquímica: 24h de experimentos via web

Prof. Dr. Luis Valcov LoureiroMestre (1981) e Doutor (1984) em Engenharia pela Ecole Centrale des Arts et Manufactures de Paris, França, Luiz Valcov é bacharel em Engenharia Mecânica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Desde 2004 é diretor executivo da Comissão Fullbright no Brasil, que busca promover o entendimento mútuo entre os Estados Unidos e o Brasil, por meio da concessão de bolsas de estudo e docência.

Valcov tem experiência na área de Administração, com ênfase em Planejamento em Ciência e Tecnologia. Colaborou na criação do portal de periódicos eletrônicos da Capes, em 2000 e, desde 1988, é Professor Assistente Dr. do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP.

No weblab de processos químicos e bioquímicos do Projeto KyaTera, colabora no desenvolvimento de aplicações da Internet Avançada, representando o laboratório internacionalmente.

Conheça a criação e o funcionamento desse laboratório na entrevista abaixo.

nível do tanqueComo surgiram as primeiras experiências no laboratório de Engenharia Química da USP?

Nós começamos em 2003 com os recursos da própria Engenharia Química. Montamos uma bancada experimental para aulas que eram de caráter predominantemente teórico. As disciplinas se restringiam unicamente à sala de aula e exercícios sem laboratório.

Nessas disciplinas, era difícil encaixar o uso de um laboratório por várias razões. Os equipamentos eram mais sofisticados e sua disponibilização para experiência era lenta.

Como a web entrou nesse processo?

Pensamos em utilizar a web para facilitar o aprendizado. Colocamos aqueles experimentos na internet, de modo que se tornassem reais. No momento em que o estudante estivesse mexendo no computador, o programa simularia, por intermédio de modelos matemáticos, uma realidade do processo, de modo que ele estivesse de fato atuando em uma sala de controle de uma indústria, abrindo e fechando uma válvula ou ligando e desligando uma bomba.

Com a utilização de equipamentos próximos daqueles que a indústria tinha, realizamos o primeiro experimento, que ficou conhecido como “nível do tanque”.

troca térmica e reação em reator de bateladaComo funcionava esse primeiro experimento?

Ele começou a funcionar no primeiro semestre de 2003, era um tanque pequeno, extremamente fácil de fazer, com uma bombinha que drenava o tanque. Nós jogávamos água, medíamos a vazão e o nível. Com uma outra válvula, regulávamos o quanto ela drenava do tanque. O nível variava rapidamente e fazíamos uma malha de controle, com a vazão, já que a disciplina era de controle de processo.

Para mostrar ao estudante que o controle era real, mesmo sendo feito por meio de um computador, colocamos uma lâmpada e uma câmera para que ele visualizasse melhor o experimento. Desta forma, os estudantes poderiam realizar experimentos 24 horas por dia.

De que forma esse Weblab se encaixou no que o Programa TIDIA propunha?

No começo nós fazíamos tudo com nossos meios, mas como a intenção era inovar, ampliar e crescer, ficou tudo muito mais caro. Começamos a esbarrar nas dificuldades, já que não existia nenhuma linha de financiamento para esse tipo de pesquisa.

A chamada de propostas para o KyaTera, que apareceu no edital do Programa TIDIA, traduziu exatamente o que fazíamos e ainda pretendíamos fazer. Fomos ambiciosos e nos organizamos com outros colegas da Universidade Federal de São Carlos, da USP de Ribeirão e da UNICAMP. Já que a idéia era trabalhar em rede, montamos o Cluster do Weblab, com a engenharia química e bioquímica.

O Weblab de processos químicos e bioquímicos foi denominado como laboratório principal, já que tínhamos alguma experiência, mesmo que pequena, nesse tipo de experimento.

Para criar esse laboratório, vocês se basearam em alguma experiência já existente?

A idéia do weblab não veio da nossa cabeça. Nós pesquisamos projetos similares e encontramos uma experiência pequenininha, com um ano de diferença, dentro do projeto do MIT, o Open Course Ware – OCW. A proposta deles é de colocar todo o conteúdo didático das disciplinas na web.

Por exemplo, se um professor da USP pensar em uma disciplina nova e quiser saber como funciona uma disciplina similar no MIT, ele poderá acessar o conteúdo via web, o que será fantástico para o aprendizado dos alunos. Uma ferramenta que se torna uma fonte de informação, já que ninguém discute a qualidade do ensino de engenharia do MIT.

Nesse projeto, um professor chamado Clark Colton, da engenharia química, fez um experimento para uma disciplina de graduação que ele lecionava. A idéia era a mesma da nossa e a tecnologia da internet permitia que ele transformasse seu experimento em realidade. Baseados nesse projeto, percebemos que a nossa experiência também seria possível e a levamos a diante, entrando no KyaTera.

Nosso laboratório não só disponibiliza conteúdos e experimentos na web para finalidades de pesquisa e ensino, mas também para uma série de outras áreas, graças à coordenação do Prof. Cláudio Oller.

Quais são as linhas de atuação do laboratório no que refere-se à utilização dessa ferramenta/experimento?

A primeira é a de realização de experimentos conjuntos entre estudantes desse Departamento, no Brasil, e em outros países. Por exemplo, em Toulouse, na França, em que a cooperação já é antiga; e em Carlsburg, na Alemanha.

O instrumento estimula os envolvidos a trabalharem, ainda mais nessa geração do orkut e do msn. É muito natural interagir com pessoas que estão em “outro canto”. A finalidade torna-se didática e eles aprendem com o desafio.

Na segunda linha, que começaremos este ano, faremos uma demonstração prática desses equipamentos em sala de aula, com o professor e os alunos atuando com o computador, mexendo e manipulando a bancada, operando na sala de controle.

Esse experimento corre o risco de não dar certo, mas esse é um desafio que estamos dispostos a superar.

Você poderia citar alguns eventos de destaque nos quais representou o Weblab?

Nós fomos convidados a participar de dois workshops.

O primeiro deles, no MIT, foi muito interessante, já que pessoas de várias universidades do mundo apresentaram suas experiências e, algumas delas, similares as nossas.

Enquanto a maioria foi estimulada pela Microsoft a utilizar o desenvolvimento de sistemas, usando as ferramentas deles, nós utilizamos os “ferramentais abertos e disponíveis” para nossos experimentos. Mostramos nossa experiência que teve a mesma preocupação que uma equipe de Cambridge, já que o curso deles é essencialmente teórico. O que o Prof. deles queria era mostrar aos futuros engenheiros a realidade da indústria.

Em julho de 2005 tivemos um outro workshop em Cambridge, na Inglaterra, e eu fui nas duas oportunidades representar o Weblab.

Cite outras experiências de weblab no mundo.

Em Leipzig, na Alemanha, há experimentos interessantes. Em Zurique, na Suiça, uma equipe montou um laboratório semelhante. Hoje, nós temos coisas muito simples, por exemplo, no youtube há uma infinidades de experimentos bem produzidos e outros nem tanto, mas que são extremamente interessantes do ponto de vista de ensino, em diversas áreas. Nós não damos conta do que está ao nosso alcance, mas quero deixar claro que nada substitui o estudante no laboratório com a possibilidade de interagir com algo que é real.

Diante das novas tecnologias nessa área, qual a proposta desses experimentos para que o aluno aprenda ainda mais?

É muito mais fácil aprender com as tecnologias de hoje. Nós queremos que o estudante não atue só sobre a equação, mexendo nos parâmetros ou no ângulo de incidência do raio de luz, mas que ele possa mexer em algo concreto, dentro de certos limites de segurança. Essa é a proposta, fazer funcionar no modelo real. Lembrando que a teoria não será substituída por essa prática, mas complementada por ela.

Resumindo, qual foi a principal contribuição do weblab de processos químicos e bioquímicos?

Nós mostramos que é viável a utilização dessas bancadas nas aulas de disciplinas que são eminentemente teóricas. A tendência é que as simulações de experimentos sejam ainda mais freqüentes, mas com a diferença de fazer as coisas funcionarem, com um agendamento prévio, já que há a repreparação da bancada. Não será uma coisa completamente aberta, e quanto mais sofisticado o processo, mais preparo será necessário. A idéia é que isso seja disseminado nas escolas, mas com equipamentos mais baratos.


Edição: Greice Munhoz




por mariana Última modificação 19/05/2008 15:49
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