Marcelo Sávio
Dos microcomputadores à Sociedade da Informação
Atuando nas áreas de Arquitetura de TI, Estudos de Ciência e Tecnologia e Sociedade, Sávio é bacharel em Matemática (1994) e mestre (2006) em Engenharia de Sistemas e Computação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Iniciou sua carreira em 1988 como monitor dos laboratórios de informática do Núcleo de Computação Eletrônica - UFRJ, prestando serviços de suporte aos usuários, no uso de redes locais e da BITNET.
Posteriormente, na IBM Brasil, tornou-se especialista em redes e Internet, realizando palestras e demonstrações de aplicações e usos da Rede em diversos eventos nacionais e internacionais.
Escreveu ainda um livro sobre o sistema operacional IBM OS/2 (1996) e, em 2005, foi co-autor do primeiro livro sobre Governança da Internet editado no Brasil.
A seguir, conheça as principais contribuições desse precursor que hoje é Arquiteto de Tecnologia da Informação da área de software da IBM e desenvolvedor de uma dissertação sobre a Trajetória da Internet no País.
1 - Na sua opinião, quais são as principais características da Internet?
A enorme capacidade que a Internet nos oferece ao permitir a construção do conhecimento de forma colaborativa é sua característica mais importante, aliada à liberdade de expressão e comunicação. É como dizem Doc Searls e David Weinberger no artigo "Mundo de Pontas" ("World of Ends"), a Internet é uma grande esfera oca com a superfície formada por pontas interconectadas. Bem, nós somos as pontas e ela é oca porque não há nada no meio que limite a nossa interação.
2 - Como foi seu primeiro contato com um computador?
Em 1984, quando era adolescente, aprendi a programar na linguagem BASIC de um microcomputador Sinclair ZX-81 emprestado de um amigo (essa máquina possuía 1 KB de memória RAM e processador Z80 de 3.25 MHz). Depois passei a usar microcomputadores da família Apple II e posteriormente os IBM PCs. Essa experiência com microcomputadores me fez optar pela carreira na área de Informática.
3 - Qual e quando foi a sua primeira experiência com a Internet?
No final dos anos oitenta eu era estagiário de monitoria dos laboratórios de informática do Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, no qual prestava serviços de suporte aos usuários da Universidade no uso de redes locais, quando lá chegou a BITNET, rede que passei a usar bastante. Posteriormente, através dos gateways entre a BITNET e a Internet, foi possível trocar emails com usuários da Internet. Mas o primeiro uso "direto" da Internet aconteceu mesmo só em 1992, quando trabalhei no projeto "Anfitrião do Rio", da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, no qual prestei serviços de suporte de Informática no Fórum Global, durante a Conferência das Nações Unidades para o meio-ambiente e desenvolvimento (Rio-92). Para essa conferência, foi montada uma super infra-estrutura de acesso à Internet (para a época). Nesse mesmo ano de 1992, comecei a trabalhar na IBM Brasil, onde fui usuário de uma rede interna chamada VNET, através da qual me comunicava, via gateway internacional, com usuários de outras redes (CSNET, BITNET e Internet). Também fui usuário de BBS cariocas (CentroIn e Inside), que me permitiam trocar e-mails com usuários da Internet, através do Alternex. E, finalmente, em 1994, fiz parte do primeiro grupo de usuários de teste do serviço de acesso à Internet da Embratel.
4 - Como o Sr. contribuiu com o desenvolvimento da Internet no Brasil?
Basicamente desmistificando o assunto e disseminando o conhecimento adquirido, pois além de ter trabalhado no suporte aos primeiros usuários da UFRJ e da Rio-92, quando entrei para a IBM passei a divulgar a Internet através de palestras e demonstrações de aplicações e usos em diversos eventos nacionais (COMDEX, FENASOFT, INFONORDESTE etc.). No entanto, acredito que minha maior contribuição tenha acontecido somente mais recentemente, quando escrevi uma dissertação sobre a história da Internet no Brasil, com o objetivo de documentar a trajetória dessa fantástica rede, de maneira que se pudesse evidenciar a riqueza dessa experiência histórica e a decorrente possibilidade de se compreender melhor seu estado atual, além de permitir extrair lições que digam respeito ao futuro dos esforços depreendidos no desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia no Brasil. Fiz isso porque concordo com o que disse o escritor de ficção científica Robert Heinlein (1907-1988): "Uma geração que ignora a história não tem passado – e nenhum futuro."
5 - Na sua opinião, quais foram os fatos mais importantes no desenvolvimento da Rede no Brasil?
Durante o VII Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), em julho de 1987, em Salvador (BA), houve uma reunião informal ("birds of a feather") para discutir a importância das redes acadêmicas e trocar informações acerca das experiências que começavam a acontecer em diversas universidades do País. A partir dessa, foi marcada e realizada uma outra importante reunião, em outubro de 1987, no prédio da Escola Politécnica da USP, na qual ocorreu a primeira "arregimentação de aliados" em prol das redes acadêmicas no Brasil, plantando-se a semente do que posteriormente veio a se tornar a RNP. A necessidade de comunicação das universidades e centros de pesquisas no Brasil com as redes internacionais, era crescente e urgente, de forma que algumas instituições (como a FAPESP, LNCC e UFRJ) se anteciparam à RNP e fizeram conexões internacionais, inicialmente com a BITNET e posteriormente com a Internet (via TCP/IP). Fora do âmbito das universidades, ainda no final dos anos oitenta, o IBASE inaugurou o AlterNex, um serviço de intercâmbio de informações por e-mail e por conferências eletrônicas. Esse serviço funcionava graças a uma parceria entre o IBASE e o Institute for Global Communications (IGC), uma ONG em San Francisco (EUA). Duas vezes por dia, o IGC fazia uma chamada telefônica via DDI ao AlterNex para a troca de mensagens. Com isso, os usuários do AlterNex passavam a poder trocar mensagens com os usuários da Internet. Por fim veio a Conferência da ONU sobre o meio ambiente (Rio 92) que proporcionou um grande avanço no acesso à Internet no Brasil, impulsionando o backbone da Rede Rio e da RNP e, ainda, através do Alternex, a comunicação com a Internet foi estendida a diversos usuários de BBS no Brasil. A partir daí veio a criação do Comitê Gestor da Internet no Brasil e a regulamentação do setor que abriu caminho para a disseminação da Internet no País.
6 - Que impactos essas conexões trouxeram ao País?
Essas conexões, que viabilizaram o contato de pessoas no Brasil com o exterior, foram importantes para disseminar a cultura das redes no Brasil, abrindo o caminho para a criação de uma Sociedade da Informação.
7 - Qual foi a principal contribuição dessas conexões para o desenvolvimento da Internet no Brasil?
As primeiras conexões (FAPESP, LNCC, UFRJ e Alternex) além de terem dado o pontapé na criação de uma Sociedade da Informação no Brasil, também representaram a quebra de alguns paradigmas importantes, ao proporcionarem o compartilhamento do acesso aos recursos de rede e ao introduzirem o uso de protocolos "não oficiais" (ou não aderentes ao modelo OSI). Foram ações "heróicas" que desafiaram o modelo monopolista estatal vigente nas telecomunicações do Brasil na época.
8 - Cite algumas situações anedóticas ou inéditas das quais participou nessa fase.
Lembro-me que, algumas vezes, normalmente após ter apresentado a Internet ao público, com demonstrações de acesso em tempo real a vários tipos de serviços, algumas pessoas me procuravam depois perguntando como poderiam "comprar uma Internet" igual a que eu havia demonstrado. Outro fato foi quando, no início dos anos noventa, comecei a usar meu email (msavio@) em listas de discussão e newsgroups e passei, de repente, a receber contatos de várias pessoas do mundo pensando que eu era o Mário Sávio, um importante ativista político norte-americano, que nos anos sessenta havia liderado um movimento pela liberdade de expressão no meio universitário. Vários de seus "liderados" vieram a mim por engano e passei um bom tempo explicando-lhes que eu não era quem estavam pensando. O meu famoso xará, a quem eu, infelizmente nunca cheguei a conhecer, faleceu em 1996.
9 - Quais perspectivas o Sr. vê para o futuro da internet?
A Internet vai, cada vez mais, ser a mola-mestra da convergência digital, na qual as comunicações pessoais (telefonia, e-mail, mensagens instantâneas, colaboração), o entretenimento (games, filmes, áudio etc.) e as informações (televisão, jornal, rádio) circularão em uma só rede, baseada nas tecnologias da Internet.
10 - Que tendências tecnológicas o Sr. considera relevantes para a sociedade neste momento?
Penso que as construções colaborativas (wikipedia, software livre etc.) em conjunto com as potencialidades das novas formas de comunicação entre as pessoas (alardeadas sob a bandeira da Web 2.0) oferecem um enorme potencial para se alavancar a inteligência coletiva dentro de uma sociedade da informação, que apesar de ainda não poder alcançar a todos, vem continuamente crescendo com o advento da convergência digital.
Edição: Greice Munhoz




