Oscar Sala
Um físico de alta energia
Oscar Sala, um físico de alta energia
A entrevista
Conquistas e descobertas
O barco que D. Rosinha ajudou a remar
A dica para os jovens
Futuro da internet
Antes da Física
Nos bastidores
Em 1922 ocorreu a formação da União Soviética. Também nesse ano aconteceu a Semana de Arte Moderna, tendo participantes como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Anita Malfatti em São Paulo, no Teatro Municipal.
Nesse ano nasceu Leonel Brizola, Antônio Bandeira, José Saramago e Oscar Sala, o pesquisador, o físico, o professor universitário. O homem que, dentre muitas descobertas, prêmios e chefias, foi o responsável pela chegada da Internet ao Brasil.
Sala foi diretor científico da FAPESP de 1969 a 1974 e presidente do Conselho Superior de 1989 a 1993. Essa iniciativa fez com que a Fundação fosse o único e principal link internacional, responsável pelo tráfego acadêmico e assumisse a responsabilidade de registrar domínios br.
A FAPESP consolidou sua participação na história da internet no Brasil através da criação da Rede ANSP (an Academic Network at São Paulo), um programa que hoje é um dos principais pontos de conexão da Internet do Brasil com o exterior e responsável pela interligação das redes acadêmicas universitárias, institutos e centros de pesquisa paulistas.
No entanto, estamos aqui para falar de Oscar Sala, nascido em Milão, na Itália, e naturalizado brasileiro; casado com Rosa Augusta Pompiglio, Dona Rosinha, há mais de 50 anos.
A entrevista
Em entrevista à Mariana Passos em 2006, Sala relembrou sua persistência em trazer a internet para o Brasil.
“Visualizei a importância da comunicação que os cientistas teriam através daquele computador, a evolução que a ciência poderia ter, a rapidez com que as informações de outros países chegariam ao Brasil, e aí eu quis contribuir”.
Sala encontrou resistências em implantar a internet no Brasil.
“A FAPESP foi muito importante nesse desenvolvimento. Ela aceitou a idéia em um sistema moderno e avançado, que se comunicava com todos. No início acharam que era uma bobagem a minha idéia, mas aí eu fui lá e fiz a bobagem”, relata.
Sala graduou-se em 1941 no curso de física da FFCL da USP, estagiou na Universidade de Illinois e na Universidade de Winconsin. Em Illinois, sob a orientação de M. Goldhaber, inovou uma técnica precursora na produção de instrumentos multicanais. Em Winconsin, junto com R. Herb, elaborou um importante projeto para pesquisas na área de energia nuclear, um acelerador eletrostático para São Paulo.
Conquistas e descobertas
Sala desenvolveu um voltímetro para altas tensões, foi responsável pela montagem e projeto parcial do Acelerador Pelletron no Instituto de Física da USP em 1972, integrou o grupo de trabalho Brasil-Estados Unidos, organizado em Itatiaia, Rio de Janeiro, pela National Academy of Sciences e pelo CNPq.
Fez parte do Workshop sobre Física dos Íons Pesados, do Instituto Niels Bohr da Dinamarca, em 1973. Foi membro do Conselho Deliberativo do CNPq (1964-1968), do Conselho Diretor do Centro Latino-Americano de Física (1968) e do Comitê Internacional sobre Estrutura Nuclear (Kingston, 1960), do Simpósio de Física Nuclear de Baixa e Média Energia (Manchester, 1963), do Congresso Internacional de Física Nuclear (EUA, 1966), do Grupo Científico Internacional de Exame dos Dados Nucleares (1964-1965) e de várias reuniões da Sociedade Americana de Física.
Presidiu a Sociedade Brasileira de Física (1968-1971), em que contribuiu na idéia original e na redação dos estatutos. Na SBPC (1973-1979) é Presidente de Honra, assim como na Associação Interciência das Américas (1975-1979), na Academia de Ciências do Estado de São Paulo (1985-1987) e o Conselho Superior da FAPESP (1983).
Suas gestões contribuíram na defesa da educação, da ciência e da consciência crítica do País. Sala nunca se ligou a partidos políticos, para que isso facilitasse a mediação entre os governos militares.
Pertence à Academia de Arte e Ciências dos EUA, à Academia de Ciências do Terceiro Mundo, à Sociedade Americana de Física, à Sociedade Brasileira de Física e à American Association for the Advancement of Science, além de ter sido construtor de laboratórios experimentais de física nuclear.
Publicou grande número de artigos em revistas especializadas sobre raios cósmicos, Física Nuclear, instrumentação e Física de Aceleradores. Foi orientador de diversas teses de mestrado e doutorado em diversas áreas da Física. Entre outros prêmios, recebeu a medalha de Honra ao Mérito da SBPC em 1973.
A FAPESP é uma instituição cuja existência tem ressaltado a vitalidade da comunidade científica paulista. Em 1947, a criação de fundos para a pesquisa tinha uma doação de 0,5% da arrecadação de impostos sobre o consumo. Hoje o governo reconhece o papel da FAPESP, que recebe 1% do ICMS para incentivar a pesquisa.
Sala alega ter entrado na FAPESP pelo convite do professor Ulhoa Cintra, na época reitor da Universidade de São Paulo e presidente do conselho da Fundação.
O barco que D. Rosinha ajudou a remar
D. Rosinha e Oscar Sala se conheceram em Campos do Jordão, quando Sala realizava pesquisas sobre raios cósmicos. Segundo D. Rosinha, Sala não gostava de passear pela cidade, mas num certo dia, a convidou para dar um passeio no lago.
“Nós fomos, ele empurrou o barco para dentro d`água, eu subi, ele passou, deitou na proa e disse: `rema pra mim`. E eu estou remando até hoje”.
Dessa história de amor, nasceram Luiz Roberto, Regina Maria, Thereza Cristina e seis netos.
A dica para os jovens
No fim da entrevista, Sala quis dar uma dica para a nova geração de pesquisadores no País.
“O jovem deve fazer uso da informação, deve expandi-la, fazer uso dessa informação para o seu próprio crescimento”, afirmou.
Sala completou que a esse meio é talvez o mais importante existente e que é preciso dedicação para se estar ao lado de um computador.
“O importante é a Universidade dar uma formação sólida e deixar o indivíduo fazer o que ele quer, o que ele gosta, o que ele acha importante. Então, uns continuam na pesquisa básica, outros vão para a indústria”, afirmou Sala em entrevista a Amélia Império Hamburguer.
Futuro da internet
Acreditando sempre na rapidez desse novo meio, Sala acredita que estamos vivendo apenas o início de sua evolução. Enfatiza ainda que em breve, todos terão consigo um computador no bolso e que diversas serão as tendências tecnológicas. “A internet mostrou que o mundo é pequeno pra ela”.
Sala destacou também a importância da física nuclear para os avanços tecnológicos. “O tanque de Van de Graff foi feito pela Bardella e foi o primeiro tanque grande e de pressão feito no Brasil”, complementa.
Antes da Física
Sala formou-se em piano no Conservatório de Bauru. Seu pai era apaixonado por música, mas ficou quatro anos na guerra, voltando a ser alfaiate, quando o filho nasceu.
Recebeu até uma bolsa de aperfeiçoamento em música, mas decidiu fazer Engenharia na USP. Posteriormente se transferiu para a Física, que fazia parte da Faculdade de Filosofia.
Nos bastidores
Sua surpreendente vivacidade foi abalada por um derrame cerebral do qual, com sorte e força de vontade, felizmente pôde se recuperar. Hoje vive com D. Rosinha, a esposa que rema seu barco, completando mais que bodas de ouro juntos, e mostrando que com coragem pode-se conseguir tudo aquilo que se deseja.
Sala não esperava contribuir tanto para o País em que fora naturalizado. Ainda hoje faz visitas periódicas à FAPESP e faz questão de ir a eventos em que é homenageado.
Esse físico, que possui toda essa energia, inclusive para receber uma estudante de Jornalismo em sua casa (D. Rosinha lembra que Sala nunca gostou de jornalistas) relembrou muitas vezes o fato de estar sendo esquecido por aqueles com quem mais esperava contar.
Por isso queremos relembrar à sociedade o significado e o valor desse homem que teve a iniciativa de trazer a internet para o Brasil.
Os dados relacionados a biografia do entrevistado foram retirados de seu currículo divulgado no GINA Acadêmicos.
Edição: Greice Munhoz




